buscarmos a derrota

O fenómeno mais notável é a vontade crescente de buscarmos a derrota mais total, a enfermidade mais completa, a degradação mais profunda. depois de ter examinado a questão, dando-lhes todas as voltas possíveis, cheguei à seguinte conclusão que não passa de uma série de perguntas: não teremos experimentado demasiadas vezes a miséria da vitória, do sucesso e da glória para continuarmos a ter a força de imaginar atingir a salvação por essas vias? O que é a salvação? É, julgo eu, o processo através do qual conseguirmos de repente suportar a ideia de que esta vida é vazia, fria, indiferente, um nada. Se, como decerto devemos fazer, partirmos da hipótese segundo a qual a faculdade de suportar este conhecimento, precioso entre todos, é indispensável ao homem, então põe-se uma outra questão: Em que momentos seremos mais acessíveis à salvação? Teremos a ousadia de responder: a vitória não nos traz qualquer apoio firme, a glória é para nós um deserto onde nos morre a alma? Todos nos perguntamos: Em que pensam os outros homens quando estão sozinhos? Se pensam como nós, por que é então que nunca o sabemos? Talvez saibamos todos a mesma coisa sem nos atrevermos a revelá-la uns aos outros? Talvez nos perguntemos: Onde está o amigo que procuro em todo o lado? Talvez o encontremos, todos nós, quando amarfanhados e em sangue o descobrirmos deitado, amarfanhado e em sangue, também ele, no fundo desse abismo para onde nos impele o nosso desespero? Mais fundo, mais fundo ainda, grita-nos o nosso desejo e por isso não interrompemos a nossa queda. Não é por amarmos a queda que caímos, não é por gostarmos de rastejar na noite que rastejamos, não é por amarmos a morte que a procuramos, porque a morte, nós sabemo-lo bem, não passa da punição por termos vivido. Talvez, simplesmente, esperemos descobrir nas trevas uma luz que a própria luz nos recusa, talvez esperemos descobrir na solidão um amigo que a comunidade dos outros nos nega

in As Sete Pragas do Casamento, Stig Dagerman

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